Precisa Ter "Dom" para Ler Cartas?
De onde vem a ideia da necessidade de ter “dom” para ler cartas?
Ainda hoje muita gente ainda acredita que só quem “nasceu com dom” pode ler as cartas. Essa ideia é antiga e no Brasil ganhou força porque tudo o que não se entende direito se torna algo místico, espiritual e inacessível.
A verdade é que o mito do “dom” se formou justamente porque as origens dos oráculos sempre foram cercadas de mistério. O Tarot, por exemplo, tem registros documentais na Itália do século XV, mas ninguém sabe ao certo de onde vieram seus símbolos ou por que foi criado.
O Lenormand também nasceu de forma curiosa — e por falta de informação, acabou se misturando com crenças religiosas, mediunidade e tradições ciganas.
Essa mistura entre espiritualidade e desconhecimento fez com que o simples ato de ler símbolos e padrões fosse confundido com receber mensagens do além. Mas a leitura de cartas é, na verdade, um processo humano e consciente, não mediúnico.
Portanto, vamos começar entendendo um pouco sobre as origens do Tarot e do Lenormand.
As Origens do Tarot
O Tarot não nasceu como instrumento de adivinhação. Ele surgiu nas cortes italianas, entre os séculos XIV e XV, como um jogo lúdico chamado tarocchi — uma espécie de entretenimento aristocrático, cheio de imagens alegóricas.

Somente muito mais tarde, estudiosos e ocultistas começaram a perceber que aquelas imagens — os arcanos maiores — representavam forças e arquétipos universais.
Os 22 arcanos que mais conhecemos, são os que têm documentação um pouco mais clara. Já os demais 56 Arcanos Menores ainda têm origem bastante nebulosa — possivelmente derivados dos antigos jogos de naipes do Oriente.
Com o passar do tempo, filósofos, alquimistas e místicos europeus atribuíram significados esotéricos às cartas. Assim, o Tarot deixou de ser um jogo e passou a ser um espelho simbólico da alma humana.
Ou seja: ele nasceu humano, artístico e simbólico — e só muito depois ganhou uma roupagem espiritual e divinatória.
A origem das cartas Petit Lenormand (Baralho Cigano)
Enquanto o Tarot nasceu na Europa renascentista, o Lenormand surgiu de um jeito bem mais comercial. Na verdade, suas cartas são as imagens de em um jogo de tabuleiro criado por um empresário alemão chamado Johann Kaspar Hechtel, no final do século XVIII, chamado Das Spiel der Hoffnung (“O Jogo da Esperança”). Era um jogo lúdico, divertido e simbólico, feito para festas e salões, e não para prever o futuro.
. 
Depois da morte da famosa Madame Marie Anne Lenormand, uma vidente parisiense que realmente ficou conhecida por atender figuras históricas como Napoleão Bonaparte e Josefina, o nome dela virou um verdadeiro fenômeno.
Muitos começaram a usar sua imagem e a reputação de seu nome como uma marca registrada. O Petit Lenormand foi um desses produtos: um golpe de marketing brilhante, que aproveitou a reputação da médium francesa para vender o antigo Jogo da Esperança sob um novo nome.
Importante salientar que a própria Madame Lenormand nunca usou o baralho que leva seu nome, mesmo porque, o baralho “Petit Lenormand” foi lançado depois da sua morte.
Com o tempo, o baralho cruzou o oceano e chegou ao Brasil, chegando aqui, o baralho se misturou com tradições religiosas e com o imaginário espiritualista do país. Ficou conhecido como “Baralho dos Ciganos”.
Com essa chegada pelas vias religiosas e místicas, começaram a surgir várias lendas. Uma das mais conhecidas é a de que só quem tem “sangue cigano” pode ler o Petit Lenormand — como se fosse um segredo passado apenas entre famílias iniciadas.
Mas essa crença não tem base histórica. Ela foi sendo repetida de geração em geração, até se transformar num mito. Na prática, o conhecimento sempre passou de pessoa para pessoa — alguém ensina alguém.
Mesmo que você tenha aprendido com sua avó, ainda assim foi um aprendizado humano, uma transmissão de experiência, e não um dom que “veio do além”.
Portanto, ler cartas é uma arte de interpretação e sensibilidade, e sensibilidade não é privilégio de uma linhagem: é um aspecto humano universal. A verdadeira herança não é genética — é simbólica.
O que realmente acontece numa leitura de cartas
Para desmistificamos as leituras, vamos entender como funciona o oráculo em sua estrutura energética. Quando alguém embaralha e tira as cartas, não está invocando forças misteriosas, nem pedindo que “o universo fale”. Na verdade, está abrindo uma janela simbólica para o próprio inconsciente — um espaço onde ficam guardadas todas as experiências, memórias e emoções, organizadas não por lógica, mas por imagens e sensações.
O inconsciente é caótico. Ele não fala com palavras, mas com símbolos, arquétipos e associações emocionais.
Enquanto o consciente organiza ideias por meio da linguagem e da razão, o inconsciente forma conexões entre sentimentos, imagens e experiências como se fosse uma corrente que liga uma assunto a outro por meio destas conexões.
E é exatamente isso que o cartomante faz: ele é o intérprete desse caos. Traduz a linguagem simbólica em linguagem verbal.
Cada carta funciona como um símbolo vivo — um espelho que reflete o que está atuando dentro de nós. O papel do leitor é o de decodificar o simbólico: ele observa as imagens, sente as conexões e as organiza em palavras. Por isso, ler cartas é mais parecido com interpretar sonhos do que com adivinhar o futuro.

As cartas, então, atuam dentro do princípio da sincronicidade, formulado por Carl Jung — a ideia de que certos acontecimentos se conectam não por causa e efeito, mas por significado. Ou seja, a carta que sai não é “por acaso”: ela é sincronizada com o estado interno do consulente e com a energia do momento presente.
Por isso, o oráculo não precisa de mediunidade, pois estabelece uma ponte de diálogo entre a mente consciente e o inconsciente, entre o visível e o invisível, mas dentro do próprio ser humano.
Outra desmistificação necessária é entendermos que o oráculo de cartas não acessam o futuro em si, mas o que está sendo plantado no momento presente.
O que é intuição?
Agora entrarei num assunto polêmico, muitos confundem intuição com “voz espiritual” ou com canalização. Mas a intuição não vem de fora — ela vem de dentro. Ela é o resultado de tudo o que a gente vivenciou, observou, sentiu e aprendeu, guardado no nosso inconsciente e reorganizado em forma de percepções rápidas.
A intuição é como uma bússola interna que reconhece padrões. Ela se manifesta quando o inconsciente percebe algo antes da mente racional conseguir explicar. Por isso, quando estamos atentos à vida — observando as pessoas, os ciclos, as repetições —, nosso campo de percepção se amplia. E quanto mais observamos, mais fácil fica “ler” o outro e as situações.
O problema é que, no imaginário popular, isso também foi mistificado, justamente por desconhecerem como funciona a nossa mente. Chamaram de “dom espiritual” o que, na verdade, é resultado de consciência, prática e sensibilidade.
A intuição é uma percepção por vias inconscientes, que apreende o todo e suas possibilidades.
Jung, C. G. (1921). Tipos Psicológicos. Rascher Verlag.
A intuição é construída. Ela nasce do olhar curioso, da empatia, da escuta ativa e da reflexão. Quanto mais você se conhece e observa os outros sem julgar, mais precisa ela se torna — porque você começa a identificar padrões humanos universais. Essa é a base da leitura: reconhecer padrões e traduzi-los em linguagem simbólica.
Por isso, quanto mais o leitor de cartas estuda, pratica e reflete sobre a vida, mais clara se torna a sua leitura. A intuição não é mágica — é uma forma refinada de percepção. E como toda percepção, pode (e deve) ser treinada.
O Verdadeiro Dom do Cartomante
Depois de tudo isso, fica claro que o verdadeiro dom não está em “ver além”, mas em saber estar presente diante do outro. O único dom que alguém realmente precisa para ler cartas é o dom de ser humano — escutar com paciência, observar sem julgar e compreender que cada pessoa está em um ponto diferente da própria jornada.
Ser cartomante é lidar com a dor, a confusão e as esperanças das pessoas. E isso exige empatia, humildade e discernimento. Não é raro que o leitor sinta vontade de “salvar” o consulente, ou que se sinta superior por ter respostas simbólicas nas mãos.
Mas o nosso papel não é o de um salvador — é o de um tradutor e orientador. Ele apenas organiza o que o outro já sabe, mas ainda não conseguiu ver.
Muitos médiuns acabam caindo na armadilha do ego espiritual, quando se veem idolatrados por quem busca ajuda. O mesmo pode acontecer com cartomantes.
Por isso, o maior exercício não é desenvolver mediunidade, mas esvaziar o ego. Entender que a leitura não é sobre “ter razão”, e sim sobre oferecer clareza.
O verdadeiro dom é a capacidade de sustentar o campo do outro sem se perder nele. É manter-se sensível, mas imparcial. É saber quando silenciar, quando acolher e quando orientar com firmeza. Esse é o dom que realmente importa — e ele pode ser aprendido, cultivado e aperfeiçoado.